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Revista Liderança | Gestão, Pessoas & Atitudes

Especial

Motivação de equipes: do mito à realidade

por Cleverson Uliana

Edição 10/2009

 

Palavra alguma ganhou tanto espaço no mundo corporativo nos últimos anos como motivação. Virou moda! Enquanto profissionais correm atrás de sua automotivação, líderes têm como uma de suas principais atribuições motivar sua equipe. Mas o que é exatamente a tal da motivação? Na psicologia, trata-se da força propulsora por trás de todas as ações de um indivíduo. Na administração, é o processo responsável pela direção, intensidade e persistência dos esforços de uma pessoa para alcançar uma meta. Os dois conceitos se encontram ao afirmar que motivação é o conjunto de motivos que levam o indivíduo a agir de determinada forma.

Os primeiros estudos tentaram encontrar um modelo único de motivação para todos os profissionais e empresas, acreditando que todos seriam motivados da mesma forma. Então, apareceram os incentivos salariais relacionados à produtividade de cada colaborador, que deram certo por um bom tempo. Embora, atualmente, muitos líderes acreditem que apenas salário e benefícios motivam as pessoas, esse é o erro mais comum que se costuma encontrar nas empresas.

Os primórdios – Não é de hoje que a motivação é discutida e estudada. O tema ganhou destaque na década de 50, quando o psicólogo Abraham Maslow apresentou sua teoria piramidal das necessidades humanas por meio da qual é possível rebater a pirâmide organizacional. Dessa forma, entende-se que na base operacional estão as necessidades básicas e de segurança, no nível intermediário estão as necessidades de trocas sociais e, no ápice, a procura é pelo atendimento das necessidades de autoestima e autorrealização.

Já nos anos 70, o psicólogo Frederick Herzberg repensou a motivação ao propor que existem dois fatores que devem ser levados em conta quando o assunto é satisfação de colaboradores: os higiênicos (condições de trabalho, recompensa salarial e segurança no emprego) e os motivacionais (realização pessoal, responsabilidade e reconhecimento). Os fatores higiênicos são os tradicionalmente usados pelas empresas para motivar seus funcionários, mas são insuficientes e limitados em sua capacidade de influenciar o comportamento das pessoas. Já os motivacionais tendem a produzir efeitos duradouros de satisfação e aumento de produtividade em níveis de excelência. A conclusão de Herzberg é que não basta oferecer fatores higiênicos para ter colaboradores motivados, é preciso dar oportunidades para que eles cheguem aos objetivos de satisfação interior.

Mas foi o pesquisador Ernest Archer, em 1978, que trouxe o conceito de motivação difundido até hoje ao afirmar que ela nasce somente das necessidades humanas, e não das coisas que satisfazem essas necessidades. Segundo ele, o ser humano possui necessidades interiores que representam a fonte de energia de seu comportamento.

Como motivar – A motivação é a grande força propulsora do comportamento humano, tanto pessoal quanto profissional. As pessoas são motivadas para agir e obter resultados pela vontade de satisfazer seus desejos e necessidades, ou seja, o potencial motivacional está dentro de cada um.

É por isso que ultimamente você tem ouvido muito que ninguém motiva ninguém – é a mais pura verdade! Então, qual é o papel do líder em toda essa história? Ora, é função dele identificar o que motiva cada integrante de sua equipe e descobrir quais são suas aspirações e desejos para incentivá-lo a alcançar esses objetivos, isto é, estimular a motivação de cada um.

Motivar pessoas é a capacidade de fazê-las agir em função das causas, muito mais que por projetos – tem a ver com as razões, os motivos para agir. “Existem duas perguntas a serem respondidas por todos nós: o que quero? E porquê? Motivação tem a ver com os porquês. Prêmios são grandes incentivadores, mas somente anabolizam. Ninguém fica musculoso ou mais forte com vitaminas e suplementos – eles apenas complementam”, exemplifica Paulo Angelim, palestrante especialista em motivação.

Não há como motivar uma pessoa sem que suas necessidades básicas sejam suprimidas. Você consegue imaginar alguém motivado, mas que não tenha moradia, alimentação ou vestuário? Motivar é atender às necessidades e aspirações humanas, por isso não dá para pensar em um sem o outro – a relação entre os dois é total.

 

“Devemos regar nossas plantas se quisermos que elas deem frutos. Por isso, a motivação deve ser diária, não somente em ocasiões eventuais. É preciso conhecer cada colaborador para saber quais são suas necessidades, pois eles precisam receber estímulos para se tornar melhores a cada dia. A valorização e o reconhecimento do trabalho ajudam bastante”, acredita Gelice Sbruzzi, auxiliar administrativa de Lajeado, RS.


O que motivar – Nem sempre dois colaboradores que agem da mesma forma o fazem pelas mesmas razões. Logo, cada integrante da sua equipe tem necessidades, sonhos e metas diferentes. Cabe a você, líder, descobrir o que motiva cada um e tentar, dentro das políticas da empresa, mostrar os caminhos para que ele possa atingir seus objetivos.

Para identificar as necessidades, sonhos e metas de seus colaboradores, você não precisa de bola de cristal ou ser um especialista em avaliações de perfil. Comece pelo básico: observe o dia a dia e sempre faça perguntas. “Anote tudo o que você identificar. Se deixar tudo na cabeça, logo cai no esquecimento. Tenha um pequeno perfil de cada pessoa e vá adicionando informações. Observe sempre o comportamento da pessoa no ambiente de trabalho, mas evite julgar, compreenda os motivos que levam cada um a ter determinada postura”, recomenda Paulo Araújo, palestrante motivacional e autor do livro Motivação – Faça a diferença.

Você também pode trabalhar com avaliação de desempenho ou testes elaborados por consultorias especializadas em comportamento humano. A partir dos resultados, elabore programas de incentivo ajustados às necessidades de cada um. “Muitas vezes, imagina-se que a motivação só se promove com premiação financeira. Mas não é com dinheiro que o profissional compra um lugar no grupo ou aceitação social. Uma simples valorização pública pelo líder pode, muitas vezes, superar tremendamente os bônus financeiros”, explica Paulo Angelim.

Como você percebeu, o líder precisa ter uma percepção eficaz para fazer o diagnóstico correto daquilo que seus colaboradores buscam encontrar no trabalho. Até porque, diversas vezes, o líder ajuda seus funcionários a reconhecer as necessidades motivacionais que possuem, uma vez que elas podem não ser claramente percebidas, mas estar dormentes em suas personalidades. “Já que o líder não pode colocar a necessidade dentro de alguém, ele precisa conhecer quais delas estão menos satisfeitas naquele momento – pois são elas que comandam o comportamento – e conseguir oferecer fatores complementares a elas”, comenta Cecília Bergamini, consultora de empresas e autora do livro Motivação nas organizações.

 

“A motivação de meus colaboradores é uma busca constante. Procuro conhecer suas emoções, necessidades e relacionamento familiar. Assim, posso tratá-los de forma diferenciada, analisando o que motiva cada um. Procuro atender suas necessidades e desejos, pois sei que isso se refletirá no comprometimento e empenho em obter melhores resultados”, diz André Mancebo, consultor autônomo de Itapeva, SP.


Eventos motivacionais? – É muito comum os líderes investirem constantemente em seminários, palestras e cursos com o intuito de motivar seus colaboradores. Mas como cada um tem perfil motivacional próprio, o trabalho do líder não pode ser generalizado. “Pode-se fazer palestra sobre o fenômeno da motivação, mas o trabalho de conseguir seguidores motivados é individualizado. O bom líder é procurado espontaneamente por seus seguidores para dar orientação sobre a motivação de cada um deles”, aconselha Cecília Bergamini.

Esse tipo de investimento é importante, mas o participante deve usar a energia e o conhecimento que adquire. Não há nada mais frustrante que assistir a um evento motivacional e voltar para a empresa tendo a certeza de que lá nada nunca vai mudar. É preciso motivar e deixar as pessoas criarem e experimentar novos processos, sistemas e tecnologias.

Detalhes importantes – Embora você já saiba que a motivação está dentro de cada um e o que o líder pode fazer é estimulá-la, algumas ações simples podem funcionar como verdadeiros catalisadores motivacionais – elogiar, valorizar e reconhecer devem ser hábitos dos bons líderes. Afinal, o que está sendo bem-feito deve ser destacado. Essa é uma das melhores formas de incentivar o colaborador a continuar por esse caminho. Existem outros pequenos atos que podem somar na motivação da sua equipe:

 

  • Promover um bom ambiente de trabalho.
  • Confiar nas pessoas que trabalham com você.
  • Demonstrar o quanto cada um é importante no processo.
  • Integrar as pessoas.
  • Dar feedback.
  • Celebrar os bons resultados.

Por outro lado, determinados comportamentos e atitudes podem ser inversamente proporcionais à motivação de seus funcionários: falta de transparência nas decisões, autoritarismo desnecessário e frequente, condições inadequadas de trabalho e, claro, remuneração defasada em relação ao mercado – todos são aspectos que podem interferir no processo de motivação.

E atenção! Você, como líder, deve ser o exemplo e grande inspirador da equipe. “A má liderança é o maior fator de desmotivação em qualquer tipo de empresa e também o maior motivo da perda de talentos para os concorrentes. De nada adianta uma pessoa motivada, mas que não tem espaço para criar, se desenvolver e crescer. Logo ela vai procurar um lugar no qual seu trabalho seja reconhecido”, lembra Paulo Araújo.

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Autor(a):

Cleverson Uliana

Cleverson Uliana é graduado em Jornalismo e Rádio e Televisão. Foi editor-executivo da revista Liderança até setembro/2010.
 



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