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Revista Liderança | Gestão, Pessoas & Atitudes

Forma x conteúdo

publicado em 24/01/2011

Olá.

Em um estudo conduzido pelos professores Todd Rogers e Michael Norton, ambos da Universidade de Harvard, e publicado pela Harvard business review (www.hbrbr.com.br) demonstrou que indivíduos que sabem se esquivar inteligentemente de perguntas que lhe são dirigidas impactam de forma mais positiva sua audiência que aqueles que as respondem de maneira objetiva e sincera, mas com menos desenvoltura.

Os professores mostraram a um grupo de controle vídeos com diferentes versões de um debate político. Na primeira, um candidato respondia o que lhe foi perguntado de forma direta. Na segunda, foi evasivo e se desviou da questão central. Na terceira, também se esquivou, mas de forma confusa e hesitante.

O que chamou atenção dos pesquisadores foi a forma como a audiência reagiu à segunda resposta. Ela não percebeu que o candidato havia “pulado” a questão original, respondendo-a como se fosse outra pergunta – e fez isso de maneira eloquente. Em outras palavras, vale mais a forma que o conteúdo.

Não é novidade a capacidade de algumas pessoas serem evasivas e conseguirem “responder não respondendo” o que lhes é questionado. Políticos são mestres nisso. Lembro-me de uma entrevista que o ex-presidente Lula deu ao Fantástico no auge da crise do mensalão – o jornalista era o Pedro Bial. Indagado se sabia ou não dos fatos, Lula respondeu que, no instante em que dava aquela entrevista, alguém poderia estar praticando algum ato ilícito em nome do governo ou do PT e ele não poderia estar ciente disso.

Esta e-zine é enviada para milhares de líderes, e as perguntas que deixo são:

  • Ser eloquente é melhor que ser sincero?
  • Isso é correto?
  • Os fins justificam os meios?
  • Sua audiência (equipe) “compraria” respostas evasivas?
  • Se sim, ela não seria medíocre?
  • Pior ainda, você “responde não respondendo”?

Voltando à entrevista de Lula ao Fantástico, acredito que você ainda deve se lembrar daquele deputado Sergio Naya (já falecido), dono de uma construtora, cujo mandato foi cassado. Enquanto se divertia em Miami, seus prédios desmoronavam, prejudicando centenas de pessoas. Ele poderia ter alegado que, enquanto estava em Miami, ou em seu gabinete no Congresso, não podia controlar seus engenheiros, o que faziam, o que compravam, o que prometiam e o que vendiam, concorda?

O perigo para quem tenta impingir um discurso, seja ele público ou privado, é se esquivar das perguntas que lhe são feitas. Cedo ou tarde, a conta aparece e aí será difícil pagá-la. A sorte é que, muitas vezes, a audiência prefere a forma ao conteúdo.

Meu pai, sem saber dessa pesquisa, costumava dizer: “As pessoas compram o que elas veem, e não o que elas leem”. Eu prefiro uma equipe de leitores.

Um grande abraço e até a semana que vem!

Júlio Clebsch
Gerente editorial da revista Liderança
julio@lideraonline.com.br
 

Artigo da semana
Big Brother Brasil educa

Por Luciano Pires

Numa discussão sobre o Big Brother Brasil – que a cada edição bate recordes de audiência –, provoquei várias caretas ao dizer que considero o programa uma oportunidade fantástica de aprendizado. Quase apanhei, mas expliquei que tudo depende de como o espectador encara o programa. Se você procura mais que simples entretenimento, consegue assistir ao BBB de olho no impacto e influência de cada participante sobre os demais. Ah, eles são vazios? São. Mas são gente como a gente.

êencontra ali uma inestimável aula de antropologia, sociologia e política, com exemplos claros de como funciona a vida em sociedade. Verá os conflitos, as intrigas, a dissimulação, as mentiras, a manipulação, a generosidade e o medo, todos aqueles pequenos truques, pecados e atitudes com os quais convivemos no dia a dia. Está tudo ali, exposto para quem quiser ver – e aprender. Assistindo ao Big Brother Brasil como uma vitrine de comportamento, você aplicará seu tempo em aprendizado.

Mas, se você escolher assistir ao BBB como mero entretenimento, para ver as bundas das moças ou os muques dos moços, quem fica com quem, qual fica bêbado ou uma baixaria qualquer, terá aplicado seu tempo apenas em fofoca. O Big Brother Brasil só é um sucesso estrondoso de audiência por explicitar claramente nossas fraquezas e atender àquele irresistível impulso que todos temos para o voyeurismo: espiar os outros sem ser notado. Quem escolhe se vai aprender com isso é você.

Bem, antes que venham as pedradas, deixe-me dizer como iniciou essa reflexão: li num artigo recente que somente 10% da população tem disposição para aprendizado. São as pessoas que vão atrás, gostam e sentem prazer em aprender. Os outros 90% nunca vão se importar em ampliar seus conhecimentos e habilidades até que sejam obrigados a isso – pressão do trabalho, por exemplo. Só 10%, já pensou? E justamente hoje, quando vivemos naufragados em informação... Nesse cenário, é preciso refletir sobre um processo fundamental: o da educação continuada.

Aprender e estudar continuamente é a única forma de enriquecer nossa capacidade de análise, de compreensão do mundo, de tomada de decisão e de lutar para não ser eterna vítima de quem sabe como manipular as pessoas. Mas esse “estudar” não deve ser entendido apenas como frequentar uma sala de aula com professor ou mergulhar num livro de matemática. Você pode estudar lendo um romance ou uma história em quadrinhos, assistindo a um filme de aventura, ouvindo rock, observando as pessoas que passam pela rua ou seus colegas aí ao lado. 

Éa predisposição para aprender que confere aos acontecimentos um sentido pedagógico, entendeu? A capacidade pedagógica não está no acontecimento em si, mas na escolha que você faz diante dele. Assim, é possível assistir ao Programa do Gugu ou da Luciana Gimenez (nunca inteiros, é verdade), por exemplo. São fantásticas oportunidades de estudar como – por meio de um rótulo de “entretenimento” – a televisão aliena as pessoas.

Entretenimento é desculpa para tudo. Exime quem produz o lixo – no jornal, revista, livro, rádio, televisão, teatro, cinema, música e internet – de qualquer responsabilidade com algo além de “matar o tempo” das pessoas. Um pecado... No entanto, o dono de seu tempo é você. Você escolhe o que fazer com ele, para quem vai dar atenção. Você escolhe seu olhar.

O Big Brother Brasil é um projeto milionário muito bem-sucedido. Por mais que você esperneie, ele vai continuar no ar, batendo recordes até a fórmula se esgotar. “Matará o tempo” de 90% das pessoas que o assistem. Mas os 10% dispostos a aprender farão dele uma aula.

Luciano Pires é palestrante, executivo, comunicador multimídia, cartunista, aventureiro, jornalista, escritor e contador de histórias.
Visite o site: www.lucianopires.com.br

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