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Revista Liderança | Gestão, Pessoas & Atitudes

A ética como aliada

publicado em 21/09/2011

Em tempos de faxina no Planalto (de novo!), corruptos e corruptores, nomeações por conveniências, e não por méritos, ministros que se encontram em “escritórios” instalados em hotéis – em horário de expediente – e obras que dispensam licitações porque se tornaram “urgentes”, adotar princípios éticos pode ser um diferencial para as empresas e servir de exemplo para muita gente por aí.

É senso comum que hoje as organizações, sejam de pequeno ou grande portes, convivam com situações que envolvem pressão por resultados, competitividade, prazos, controle de gastos e outras capazes de deixar qualquer profissional em constante tensão. Em momentos como esse, reverter o quadro e alcançar o objetivo é crucial. A questão, para muitos, é que a estratégia adotada para isso passa longe de valores como ética, moral e respeito. Mas existem organizações que vêm fazendo justamente o contrário e sendo reconhecidas por isso – e esse número está crescendo.

Empresas de diferentes segmentos têm nos seus códigos de conduta um importante instrumento para que interajam adequadamente com os seus diferentes públicos, norteando procedimentos e posturas. A atuação ética das organizações vem rendendo não só bons resultados internos como está sendo uma aliada em suas conquistas. A Solae, líder mundial no desenvolvimento de tecnologia para ingredientes à base de soja, é um exemplo claro disso. Em março, foi reconhecida pelo Ethisphere Institute como uma das Empresas Mais Éticas do Mundo (WME) de 2011. Esse é o segundo ano consecutivo que ela recebe o prêmio.

A empresa se destacou por implementar práticas e iniciativas de negócios que foram decisivas para o seu sucesso, gerando benefícios à comunidade e avanço nos padrões éticos do setor de alimentos. “A Solae está profundamente comprometida com a ética em tudo o que faz, e esse é um dos nossos quatro valores corporativos”, destaca Cornel Fuerer, vice-presidente, diretor jurídico e diretor de compliance (normas) da multinacional. “Ser homenageada como uma das Empresas Mais Éticas do Mundo pelo segundo ano é gratificante, em razão das conquistas da empresa, e nos motiva a continuarmos tendo a ética como uma prioridade em todos os aspectos de nossos negócios”, complementa o executivo.

Para incluir a ética na política da empresa, é de suma importância que ela tenha claros tanto seus objetivos quanto as ferramentas para atingi-los, incluindo o seu corpo de funcionários e suas competências. Equipes coesas e bem organizadas são fundamentais para que qualquer procedimento seja colocado em prática e devidamente cumprido.

Na Solae, uma joint venture entre a DuPont e a Bunge, a “cartilha” com os valores trabalhados pela empresa é passada ao funcionário logo que ele ingressa na companhia. Além da ética, as atividades e relações institucionais são baseadas em segurança e saúde, na proteção ao meio ambiente e no respeito às pessoas. “Todos os novos funcionários, estagiários e contratados, recebem treinamento sobre os valores corporativos e políticas da companhia assim que iniciam o seu trabalho. Além disso, todos os líderes da empresa são orientados a dar o exemplo e a encorajar os colaboradores a seguirem as diretrizes estabelecidas”, explica a coordenadora regional de recursos humanos da Solae na América Latina e África Subsaariana, Renata Vieira.

Ainda de acordo com a coordenadora, além do treinamento inicial para os novos funcionários, a Solae trabalha seus valores também com aqueles que estão há mais tempo na empresa por meio de apresentações periódicas e outras ações sobre o tema. A definição de políticas e procedimentos claros e transparentes facilita o comportamento que os colaboradores devem ter, seja com outros colegas ou com clientes e fornecedores. Mesmo assim, caso tenham dúvidas de como agir em determinada situação, eles podem recorrer aos diversos canais disponibilizados pela empresa para esclarecimento e orientação sobre qualquer procedimento. Da mesma forma, são encorajados a comunicar incidentes antiéticos que presenciarem, podendo acessar canais de reporte anônimo, se preferirem.

Essas iniciativas permeiam cada vez mais as diretrizes da companhia e norteiam as ações realizadas. Segundo Renata, a maneira como acordos e parcerias são conduzidos é tão importante quanto o negócio em si. E isso depende do comportamento dos seus funcionários, que devem zelar pela imagem da empresa. “A importância da ética no ambiente corporativo está relacionada diretamente às ações de cada funcionário, e tais ações geram impactos na reputação da Solae.
Por isso, a apresentação dos valores corporativos também é uma forte prática nossa e está presente em qualquer contato com clientes, fornecedores, parceiros e nas reuniões internas”, garante a coordenadora. 

Nortear-se pela ética deveria ser prerrequisito, uma norma social generalizada, e não um diferencial, uma qualidade ou uma virtude a ser destacada. Infelizmente, não é o que acontece, e práticas como essa, da Solae, merecem destaque.

Sua empresa também adota práticas e iniciativas que têm a ética como prioridade? Possui uma cartilha com os valores trabalhados pela empresa? Em caso positivo, envie-a para mim. Terei o maior prazer em comentá-la.

Um grande abraço e até a semana que vem.

Júlio Clebsch
Editor da revista Liderança
www.lideraonline.com.br



Artigo da semana
A ética nas empresas

Empresas são pessoas reunidas em torno de uma proposta que as mobilizam num determinado momento de suas vidas. O CNPJ é apenas um arranjo jurídico para lhes conferir um certa identidade no campo físico.

Tudo se passa numa empresa como se fosse uma comunidade de interesses, ou seja, uma relação temporal entre seres. As pessoas são levadas a serem seus colaboradores movidas por múltiplos motivos pessoais, na expectativa de que assim fazendo estão a caminho do que imaginam ser a sua realização.

Acontece que viver entre outros, encontrar o seu espaço e poder fazer o que deve ser feito requer fazer parte e aprimorar contextos nos quais a colaboração e a solidariedade sejam um valor. Nada numa empresa consegue acontecer de fato que não seja através de um trabalho em equipe. Ações solitárias, ao sabor de motivação individual, são sempre pontuais, de alto custo, de efeito passageiro e de resultado pálido.

As companhias mais atentas sabem disso e não medem esforços para que seus colaboradores se encontrem num ambiente que promova a “concertação”, ou seja, a possibilidade de que todos atuem como numa orquestra movida pela ética do prazer. Desse modo, quando se juntam pessoas que buscam a sua realização através de tarefas que se somam, se não houver um equilíbrio entre seus interesses, os resultados finais ficam tolhidos pelos conflitos decorrentes daqueles mesmos interesses.

Equilíbrio é uma boa forma de se entender a questão ética. Não confundir com a moral. Essa não é relativa, trata da dimensão do ser humano em qualquer cultura. Nesse sentido, cuidar da ética nas empresas não se trata de ser bom ou mau, mas, sim, de puro “business”. Ser ético é assegurar resultados superiores e admiráveis.

O que mais infecta a ética na empresa, tirando-lhe a força, é a falta de consistência da alta administração na sua conduta diante dos desafios cotidianos. Inconsistência entre o que é dito e o que é feito, posições dúbias diante de questões de direito de seus colaboradores, clientes, fornecedores, acionistas, governo e a comunidade em que atua.

Atitudes evasivas, quando de necessidades sociais inquestionáveis, dão o tiro de misericórdia na percepção de todos quanto à ética da organização.

Como a ética não é algo que se obtenha a partir de cursos, tours tecnológicos ou benchmarking, só nos resta zelar, a cada passo, pelo binômio da realização e conduta de todas as pessoas que fazem o seu futuro, a começar pelos seus colaboradores. Até porque ninguém dá o que não tem.

Assegurar que a realização e a conduta sejam os predicados mais notáveis da organização pelo testemunho em qualquer circunstância do dia a dia. Zelar pela ética significa não permitir que gestos, decisões e sobretudo procedimentos administrativos corrompam os princípios humanos da segurança, da autoestima e da justiça para com as pessoas.

É fundamental dar musculatura à empresa para que ela se defenda da tentação de sair do mais certo para o mais prático. Reforçar o empenho da empresa pelo verdadeiro, ao invés do: “No nosso mercado todo mundo faz assim”. Abandonar o apressado de qualquer jeito para o mais veloz e caprichado.

O valor de uma empresa no foco dos seus clientes é uma percepção, e o preço é sempre uma questão psicológica. Os resultados, mesmo quando positivos, têm a sua avaliação sujeita a questões psicológicas de quem os analisam.

Uma organização inteligente navega confortavelmente em dimensões psicológicas e emocionais, por isso conquista resultados surpreendentes. Sendo assim, a ética é o maior ativo psicológico desses empreendimentos de sucesso.

José Carlos Teixeira Moreira, presidente da JCTM Marketing Industrial e da Escola de Marketing Industrial. E-mail:  jctm@marketingindustrial.com.br

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