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Revista Liderança | Gestão, Pessoas & Atitudes

Questões básicas para o novo empreendedor

publicado em 11/01/2012

Aspirantes a sushiman passam meses e meses (quando não passam anos) nas cozinhas apenas preparando o arroz para o chef local. O raciocínio é simples: se o arroz não estiver bom, não importa o que se faça, não vai ser possível servir um sushi de boa qualidade.

A maioria dos artigos escritos para líderes e empreendedores presume que eles já sabem preparar o arroz. Assim, muitos vão direto experimentar as novas técnicas, sem ter o controle total da empresa e sem saber medir direito o quanto uma determinada técnica foi um sucesso. Por isso, antes de experimentar coisas novas, tenha certeza de que sabe as respostas às questões básicas do empreendedorismo:

  1. Você presta atenção no seu fluxo de caixa? – Um peixe em um riacho não se importa se a profundidade da água é de dez centímetros ou um metro, desde que a quantidade de água nunca (nunca mesmo) se aproxime do zero. Qual é o seu ponto zero? O que você está fazendo para assegurar-se de que pode continuar a nadar?
  2. Você quer que seu negócio gere, principalmente, lucro ou imagem? – Um negócio que constrói uma marca, uma impressão digital, um padrão e uma audiência pode acabar valendo milhões (veja o exemplo do Tumblr, sistema on-line que facilita o compartilhamento de informações, fotos e textos para blogueiros, o qual vale muitos milhões de dólares, mas sem lucratividade). Por outro lado, um negócio sem investimento nenhum em marca pode acabar sendo muito lucrativo (considere o consultório de um médico local). Seria ótimo se você pudesse fazer algo para dar à sua empresa o máximo de valor, imagem e lucratividade, mas em curto prazo é bastante improvável.
  3. Qual é o seu papel? – Você quer ser um freelancer, um empreendedor ou o dono de um negócio? Um freelancer não se preocupa em gerir equipe, pois quase nunca a tem. Um dono de negócio é o chefe, mas vê as coisas como um emprego, um lugar que é estável e lucrativo. Um empreendedor é um tipo de artista, que se joga em situações impossíveis e procura problemas que exijam garra e coração para serem resolvidos. As três opções funcionam, mas escolha a que for melhor para você.
  4. Você está tentando construir uma equipe? – Alguns donos de negócios procuram diminuir o custo e as preocupações, contratando o mínimo possível de pessoas – e sempre as que têm experiência. Empreendedores tentam forjar uma cultura, treinam, conectam-se com todos e lideram. Donos de negócios se esforçam para que sua equipe faça o que fizeram de bom ontem, mas de forma mais rápida, mais barata e melhor. Empreendedores, por outro lado, sabem aonde a empresa quer chegar, mas também sabem que nada acontecerá se eles não reunirem seu pessoal e lhes derem as ferramentas (algumas novas e sem teste) para chegar lá. O mundo dos negócios precisa dos dois, mas temos de tomar cuidado para não confundir os papéis. Você precisa escolher o que quer ser.
  5. Qual tipo de risco você aceita? – Existe o risco financeiro, o risco emocional, o risco de marca, entre outros. Você está disposto a colocar suas fichas na mesa todos os dias? E quanto à sua reputação pessoal?
  6. Por que você está fazendo isso? – Por que abrir sua empresa todos os dias?

Tenha todas essas respostas na ponta da língua para, aí sim, aprimorar sua liderança.

Um grande abraço e até a semana que vem.

Júlio Clebsch
Editor da revista Liderança
julio@editoraquantum.com.br

P.S.: este artigo foi publicado originalmente na revista Liderança do mês de janeiro de 2012. Seu autor é Seth Godin, colunista da publicação.

ARTIGO DA SEMANA

Crise moral

As notícias se repetem dia a dia. Um ministro é deposto após acusações de corrupção em sua pasta. Um deputado acusa os colegas de terem vendido emendas. Um detento consegue regalias na prisão por meio de facilidades concedidas por algum carcereiro. Uma obra é concluída com base em documentos de autorização que foram forjados. Um estabelecimento comercial conseguiu alvará por meio de propina.

Com tudo isso, muitos cidadãos brasileiros se perguntam como pode um país se desenvolver com base nessa tão disseminada cultura de transgressões. Isso mesmo, cultura de transgressões. Essa expressão, no nosso entender, designa de forma clara o conjunto de ideias e atitudes que não respeitam a ética, pondo o interesse pessoal acima dos interesses coletivos e das leis.

Se queremos mudar essa cultura, precisamos entender que o único caminho para termos um País desenvolvido econômica e socialmente é respeitando as leis, não corrompendo nem sendo corrompido, pagando impostos e combatendo a pirataria, a falsificação e o contrabando.

Para começar, precisamos exigir de nossos governantes que ajam sempre segundo os padrões éticos. Afinal, a corrupção instalada na base da sociedade é mais fácil de ser combatida do que a corrupção que permeia as esferas elevadas de poder.

Já passamos por momentos em que parecia que os brasileiros iriam perceber o prejuízo generalizado que a corrupção provocava. Chegamos até a aprovar um impeachment contra um presidente da República, em uma onda de civismo que parecia estar nos levando a uma nova nação, de cidadãos conscientes e éticos.

Mas, quase 20 anos depois do impeachment, pouco mudou. O historiador José Murilo de Carvalho, professor titular de história do Brasil da UFRJ, distingue bem o medo e o respeito à lei. Só uma sociedade que tenha respeito às suas leis pode se alçar a um patamar destacado de desenvolvimento. Enquanto a lei só for cumprida por medo, sem que os valores que a nortearam sejam compreendidos pela população, não conseguiremos modificar essa cultura de leniência e até conivência com as transgressões.

Estudos e pesquisas mostram que os sonegadores recorrem ao argumento de que não adianta pagar impostos se as autoridades responsáveis por lhes dar o destino previsto acabam por desviá-los. Ou seja, se não há confiança de que os recursos serão aplicados para o bem geral – na saúde, na educação, na infraestrutura, na habitação –, por que ser um cidadão ético?

Sempre insistimos que uma coisa não depende da outra. Se formos esperar o modelo ideal de governante, não construiremos nada. Temos de pagar os impostos previstos em lei e exigir que eles sejam aplicados onde devem. E é isso o que estamos fazendo agora: exigimos que os governantes brasileiros se imbuam de seu dever maior como cidadãos e deem o exemplo de boa conduta para toda a população.

Há tempos, dizemos que a crise no Brasil não é econômica. Ela é social, não há dúvida. Mas, mais do que tudo, é uma crise moral. Chegamos a um ponto em que empresários comentam que as regras do jogo são essas e que, sem “molhar a mão” de quem concede licenças e autorizações, nada é conseguido. Na medida em que a iniciativa privada acaba por se mancomunar com as autoridades de várias instâncias, fica difícil desatar o nó da corrupção.

Isso se aplica a negociações entre poderosos e entre pequenos. Grandes conglomerados de empresas acabam se enredando em ligações perigosas com quem tem o poder de autorizar obras e empreendimentos, de conceder licenças ou autorizações. Da mesma forma, seguindo o mesmo rito, ela se dá entre um fiscal municipal e um camelô. Não é de hoje que, nas ruas do centro de grandes cidades, um veículo de fiscalização passa devagar se anunciando ostensivamente para que os camelôs tenham tempo de recolher sua mercadoria irregular. É o fiscal fingindo que fiscaliza.

Por isso, não só políticos e administradores em geral, como também fiscais e gestores do que deveria ser a Coisa Pública têm sido alvo de denúncias de corrupção. As discussões chegaram ao Poder Judiciário, que, por definição, deveria estar acima e a distância de qualquer suspeita de irregularidade ou malversação. As divergências entre a corregedora do Conselho Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, e alguns integrantes do Poder Judiciário são impensáveis em qualquer país que preze pela imaculabilidade de seus juízes.

Com um PIB de R$3,6 trilhões, o Brasil deveria ter um atendimento à saúde decente, uma educação pública exemplar, aeroportos à altura dos eventos internacionais previstos para os próximos anos, sem falar de ferrovias e rodovias (estas mostram como parcerias podem ter bons resultados, já que as estradas concedidas à iniciativa privada são as melhores do País).

A corrupção não deve ser tolerada em nenhum nível. Se ela chega a dimensões tão escancaradas quanto as que temos hoje no País, é impossível se calar. É impossível aceitar esse fingimento de que as leis são cumpridas, pois isso envenena as entranhas da sociedade e provoca, lentamente, sua destruição.

A esperança de mudar essa cultura vem com a estabilidade da economia (após 17 anos de Plano Real), o respeito às regras democráticas e a ascensão da classe C. Não poderia haver melhor momento para o Brasil fazer uma profunda análise comportamental e mudar sua cultura no que diz respeito a transgressões. É o momento de incentivar campanhas para que esqueçamos, de vez, que no passado alguns de nós valorizavam a Lei de Gerson, pensando em tirar vantagem de tudo.

É o momento histórico de construir uma sociedade em que o caminho seja impérvio para a corrupção. É o momento perfeito para pensarmos coletivamente em como construir uma sociedade da qual todos possamos nos orgulhar.

Roberto Abdenur é diplomata e presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO).

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